segunda-feira, 28 de Dezembro de 2009

7 castas II



o carro ilumina mal a estrada, o carro não funciona como deveria, é uma máquina velha e quem conduz não sabe que há um círculo escuro, difuso, que engole o alcatrão,
olho o espelho e as mãos através as mãos através do meu tronco há um caminho de alcatrão difuso há um círculo negro uma coisa do avesso no meu peito há um buraco onde cabem mãos através de um espaço escuro
os meus olhos no retrovisor desvio-os para o vidro embaciado onde alguém desenhou qualquer coisa, um coração, um nome, e invento que vou morrer (vou morrer vou morrer) porque a estrada se alonga e o alcatrão mais escuro e ao fundo as luzes apagam-se num buraco negro em redor da estrada, alguns prédio resistindo, algumas casas são velas fracas e não me quero ver no retrovisor que me envergonho deste ar miserável - mentira, lamentável - um cristo minúsculo, um bicho minúsculo e se, ao menos, o vidro menos húmido e as palavras pegadas às coisas lá foras "as casas as casas as casas", qualquer coisa, qualquer outra coisa, outro sítio para onde as palavras fossem e, de novo, o meu dedo sobre os contornos moles de um coração, um nome,
um coração ninguém
um nome ninguém
porque ninguém agora e no meu peito alarga-se um buraco no final da estrada e lá só cabem mãos e lá só encontram ar, um coração ninguém, um nome ninguém, não sei quem os desenhou aqui e é quase certo que não me interessa, suponho que uma rapariga numa noite como esta, o nome talvez só por piada, o nome talvez assinando, marcando um espaço, um tempo pequeno, o percurso de carro
Príncipe Real Amadora
D. Carlos I Benfica
digo rapariga porque um rapaz talvez não desenhasse nada, talvez usasse a manga para limpar o vidro, talvez o ignorasse, talvez uma rapariga o fizesse também mas custa-me a crê-lo, não me custa a crê-lo, a verdade é que desaprendi muita coisa e sinto discretamente o meu peito, sinto a carne e alguns ossos, uma nova cicatriz, tudo no sítio mas sei que conforme a luz terminar mais à frente um buraco que se formará engolindo a estrada a ocupar o lugar dessa carne e desses ossos
é isto, é isto que encontro no retrovisor, esta mágoa canina, este mendigar constante, este circo, portanto, os olhos no vidro embaciado, as coisas em vulto, as coisas são contornos, portanto, os olhos no vidro e concentro-me em
L. Camões Damaia
ou
L. Camões onde quer que seja o que quer que seja:

9.80€.


sábado, 19 de Dezembro de 2009

[sic], le mensuel de Dixit


éditorial,
par Pierre Hunout

Portugal, ma mer d’accueil et terre d’exilés, terre !, là-bas, aux confins occidentaux de l’Europe, Portugal, nous voilà !
Ce mois-ci, [sic] ouvre son espace à la poésie portugaise, pour un numéro spécial, un [sic] double, en français ET en portugais, un [sic] dans une langue qui n’est pas la sienne, mais la poésie en a-t-elle une, de langue, ou sinon, le langage ? Un numéro spécial, donc, pour fortifier les ponts et maintenir la lucarne ouverte. Evidemment, ces quelques pages ne suffiront jamais à faire le tour de la question, et d’ailleurs, là n’est pas l’objectif (à peine une esquisse). Plus humblement, notre volonté, nous dixit, se limite à cette attention envers ce que l’Autre a à nous dire, à nous conter.
Au travers de deux exemples de maison d’édition, Assírio & Alvim et & etc, il nous a semblé juste de rendre hommage à ceux qui diffuse la poésie au Portugal, car la diffuser c’est aussi faire la poésie. Ces acteurs essentiels et trop souvent ignorés ou au moins pas considérés à leur juste valeur, nous, dixit toujours, nous reconnaissons dans cette logique qui échappe au marché-roi. A l’image de & etc, nous pensons également que certains échecs peuvent révèler cette face cachée par le monde dont nous parle si bien Jaime Rocha.
De Lisbonne au chaos, de Herberto Helder à l’ombre gigantesque de Fernando Pessoa, la littérature portugaise s’est émancipée de l’époque salazariste et se réinvente, à l’image d’une terre où le temps rebrousse tous les chemins, une terre qui se confond avec son histoire maritime, comme des vagues qui sans cesse ramène au-dessus ce qui alors se tenait sur le sol, donc la poésie.
Portugal, tant d’amours, et jamais plus je ne connaitrai la
saudade.


A convite (obrigado, Pierre), escrevi um texto de homenagem - má palavra - a Herberto Helder. Versão bilingue. Ver aqui.


quarta-feira, 16 de Dezembro de 2009

7 castas


a casa que se aproxima e são raízes, assim como o teu cheiro - a tua pele, o teu cheiro - me prende aqui e tu não és nada, não és ninguém, sou eu no banco de trás de um carro, chove estupidamente e eu a olhar o retrovisor como se o ameaçasse ou como se a minha figura diminuísse contra o vidro e entristecesse e as minhas cores numa película quase a preto e branco (um filme estrangeiro qualquer, possivelmente francês, não quereria ir vê-lo ao cinema mas sei de quem o poderia achar comovente)
mas dizia eu
olhar assim retrovisor como se o chorasse, ou melhor, a paisagem, como se chorasse a paisagem, a desolação das estradas, a desolação dos prédios com poucas luzes acesas, a desolação da casa que se aproxima, ou seja, olhar assim o retrovisor envergonha-me, fico embaraçado ao dar-me conta dos meus olhos no espelho, do meu perfil reflectido no vidro, olhar assim as coisas como se cheio de mágoa e depois, para evitar saber que é mentira, penso rapidamente,
o teu cheiro, o teu cheiro como uma coisa quente, uma coisa que veio de longe, uma memória completa, um corpo cheiro
e tudo isso é outra mentira, a casa que se aproxima e nada, na verdade, nada: não há drama nenhum, nenhuma dor, apenas casa, chave à fechadura, a madeira estala e tento não fazer demasiado barulho porque isto casa e eu casa e a vida casa, sem tu ou o teu cheiro ou dores que, na verdade, acho que invento, acho que invento, grande parte da minha vida, invento-a
não sei
talvez não
não sei
o que interessa, aquilo que importa é que chove estupidamente e eu a olhar o retrovisor num grande romance trágico, quando, na verdade, ainda que sim, a desolação da estrada e dos prédio a ganharem negro de humidade, ainda que seja verdade, essa aridez, essa infertilidade, ainda assim, aquilo que me deixou confuso (palavra errada - não encontro agora outra) foi a profundidade desse olhar e como tão facilmente mergulho nessa coisa densa, nessa coisa, nessa massa, como ar quente, essa coisa espessa, como construo mundos e mundos e histórias e corpos e pessoas ou misturas de tempos e sítios e coisas e gostos e, na verdade, eu apenas casa, pouco barulho, pensar dormir e na rua a chover de um modo ridículo
portanto, de algum modo,
eu a chover de um modo ridículo.


segunda-feira, 14 de Dezembro de 2009

fé nos homens de bem


esquecer a dor nos ossos na perna esquerda nas costas ao fundo esquecer que qualquer coisa se desagrega esquecer as queixas esquecer aquilo que se pensa e custa aquilo que se pensa e custa aquilo que se pensa e custa esquecer o que falhou o que irá falhar o que não falhará e o modo como isso importa cada vez menos e como isso vai sendo mentira esquecer os amigos mortos os amigos longe os amigos esquecidos os amigos negligenciados os amigos que na verdade são outra coisa qualquer esquecer as estradas as paixões a ansiedade esquecer antes esquecer o frio nos pés e nas mãos e articulações


e pensar que são apenas dores de crescimento.


quinta-feira, 10 de Dezembro de 2009

khorda

quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

poderia ser ossa et cinera

(à Sylvia Beirute)

e se escrevesses?
em vez de ficares quieto parado ou as mãos nos bolsos - papéis pequenos um isqueiro pastilhas de mel e limão o maço de tabaco - enquanto caminhas a fingir-te perdido por Entrecampos apostando qualquer coisa num café

(as cadeiras já não são amarelas, Pedro, são vermelhas laranja e as pessoas são mais sossegadas, são mais pessoas, não reconheço ninguém, fico doente de saudades e apetece-me outra vez
combóio
hospital
quiosque
e as cadeiras amarelas de madrugada e esperar que o tempo aquecesse e esperar os vestidos negros o perfume os olhares de riso e as coisas que diziam de nós as coisas que nos chamavam porque falávamos alto e dizíamos tudo e éramos génios, cheios de vergonha de ser outra coisa qualquer, queríamos morrer por causa de mulheres, queríamos morrer por causa da nossa vida e os cadernos enchiam-se de versos
e a nossa vida acabou por chegar
e eu não sei se estou em casa)

escreveres em vez de te levantares como um velho, em vez de caminhares devagar
para atrasar o caminho de volta para atrasar as horas a linha de Sintra a subida até ao carro a casa e deixares de ficar a pensar como na verdade, gostarias de ter sido tu a dizer que


esta saudade sem distância é tão simplesmente um enorme inalador de silêncio.*



*verso de Sylvia Beirute - ver aqui.

quarta-feira, 7 de Outubro de 2009

Alice


as mãos costumavam entrelaçar-se (talvez esteja a mentir) e depois de tantos passos tanta cidade, abandonei-te um pouco de repente ou abandonámo-nos tantas outras tão depressa que me perdi entre a fala e os olhos e deixei que os olhos e os lábios me levassem a outros corpos

e o vento apenas se levantava de noite e o cais arrefecia os bancos de pedra lascados os homens falando baixo e nós uma coisa indistinta no escuro
sem muito a dizer mas fundindo-se devagar, uma vaga lenta de calor e o teu cabelo tão comprido e o teu corpo tão depressa

e o teu rosto que se erguia num sorriso fundo e os teus dedos impossíveis os teus dedos irremediavelmente brancos sempre sempre no limite da minha pele que as nossas línguas nunca se chegaram a tocar ainda que vibrassem modos idênticos, mas talvez o nosso tempo fosse outro ou sequer um tempo mas antes como o tecido vermelho dos bancos corridos enquanto o inverno se abatia sobre os plátanos defronte do hotel, nós seguros no brilho dos cinzeiros e das lâmpadas

do silêncio morno que se erguia de manhã contigo a olhar-me de um modo estranho, como se tentando reconhecer o meu rosto o meu corpo desalinhado e depois os teus lábios desenhavam os contornos das palavras a voz sumida numa rouquidão arrastada, a luz enchendo o espaço inteiro como um espelho branco, alagando o quarto até me cegar e eu a perder-me no teu cheiro e eu a encontrar-me no modo como me olhavas, por fim reconhecendo-me numa complicação de roupas

lá fora afinal chove e o que foi que deixei em ti, penso que muito pouco, talvez os dedos enrolando-se puxando-te o cabelo puxando-te contra mim, uma noite qualquer um cigarro qualquer, não chovia não havia vento ou sequer trovões, mas não nos era possível o toque da pele sem que o chão nos faltasse de repente (talvez estivessemos a mentir) e nós numa queda apavorada nós incapazes um do outro nós nervosos quebrados nós uma soma de palavras complicadas em direcção a

adeus (talvez estivessemos a mentir)
até amanhã.