o carro ilumina mal a estrada, o carro não funciona como deveria, é uma máquina velha e quem conduz não sabe que há um círculo escuro, difuso, que engole o alcatrão,
olho o espelho e as mãos através as mãos através do meu tronco há um caminho de alcatrão difuso há um círculo negro uma coisa do avesso no meu peito há um buraco onde cabem mãos através de um espaço escuro
os meus olhos no retrovisor desvio-os para o vidro embaciado onde alguém desenhou qualquer coisa, um coração, um nome, e invento que vou morrer (vou morrer vou morrer) porque a estrada se alonga e o alcatrão mais escuro e ao fundo as luzes apagam-se num buraco negro em redor da estrada, alguns prédio resistindo, algumas casas são velas fracas e não me quero ver no retrovisor que me envergonho deste ar miserável - mentira, lamentável - um cristo minúsculo, um bicho minúsculo e se, ao menos, o vidro menos húmido e as palavras pegadas às coisas lá foras "as casas as casas as casas", qualquer coisa, qualquer outra coisa, outro sítio para onde as palavras fossem e, de novo, o meu dedo sobre os contornos moles de um coração, um nome,
um coração ninguém
um nome ninguém
porque ninguém agora e no meu peito alarga-se um buraco no final da estrada e lá só cabem mãos e lá só encontram ar, um coração ninguém, um nome ninguém, não sei quem os desenhou aqui e é quase certo que não me interessa, suponho que uma rapariga numa noite como esta, o nome talvez só por piada, o nome talvez assinando, marcando um espaço, um tempo pequeno, o percurso de carro
Príncipe Real Amadora
D. Carlos I Benfica
digo rapariga porque um rapaz talvez não desenhasse nada, talvez usasse a manga para limpar o vidro, talvez o ignorasse, talvez uma rapariga o fizesse também mas custa-me a crê-lo, não me custa a crê-lo, a verdade é que desaprendi muita coisa e sinto discretamente o meu peito, sinto a carne e alguns ossos, uma nova cicatriz, tudo no sítio mas sei que conforme a luz terminar mais à frente um buraco que se formará engolindo a estrada a ocupar o lugar dessa carne e desses ossos
é isto, é isto que encontro no retrovisor, esta mágoa canina, este mendigar constante, este circo, portanto, os olhos no vidro embaciado, as coisas em vulto, as coisas são contornos, portanto, os olhos no vidro e concentro-me em
L. Camões Damaia
ou
L. Camões onde quer que seja o que quer que seja:
9.80€.



